Este é um espaço livre para conversarmos sobre o Ensino Superior no Brasil e no mundo. Gostaria de apresentar-lhe algumas reflexões sobre o assunto e, principalmente, conhecer as suas. Participe por meio de postagens e comentários. Seja bem-vindo.

Ensino Superior no Brasil e no Mundo

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Conhecimento, poder e terras-raras: o Brasil diante da nova ordem científica global

 

A ascensão das universidades chinesas ao topo dos rankings globais de produção científica é um dos sinais mais claros da transformação geopolítica do conhecimento nas últimas décadas. Instituições do país passaram a ocupar posições de destaque em classificações baseadas em volume e impacto de pesquisas, refletindo uma estratégia nacional de investimento consistente em ciência, tecnologia e inovação. Esse movimento não é pontual, mas resultado de políticas de longo prazo e de um sistema acadêmico cada vez mais orientado por metas e desempenho.

Ao mesmo tempo, as universidades dos Estados Unidos continuam sendo referências históricas em excelência acadêmica, mas enfrentam desafios que vão desde mudanças nas políticas públicas até restrições orçamentárias e redução no fluxo de estudantes estrangeiros. Enquanto isso, a China amplia recursos e atratividade internacional, criando um ambiente que acelera a produção científica e reforça sua presença em áreas estratégicas. O contraste sugere que, mantido o ritmo atual, a liderança global no campo da pesquisa pode se deslocar progressivamente.

O avanço chinês não se explica apenas pelo aumento do financiamento, mas por um ecossistema que integra educação, política industrial e planejamento estatal. A aposta em setores como inteligência artificial, biotecnologia e energia cria um ciclo virtuoso: a pesquisa alimenta a inovação, que por sua vez retroalimenta o sistema acadêmico. Esse modelo fortalece a percepção de que a China está construindo uma infraestrutura científica capaz de rivalizar — e eventualmente superar — a norte-americana.

Nesse cenário de reconfiguração, o Brasil surge com uma oportunidade estratégica rara. O país detém reservas significativas de terras-raras, minerais essenciais para tecnologias avançadas, semicondutores e transição energética. A combinação entre esse patrimônio natural e a crescente demanda global por cadeias de suprimento diversificadas abre espaço para negociações internacionais mais equilibradas, especialmente com parceiros interessados em cooperação tecnológica.

A aproximação com a China, nesse contexto, poderia ir além do comércio de commodities e se traduzir em acordos de pesquisa, transferência de tecnologia e formação de capital humano. O debate sobre semicondutores e novas cadeias produtivas mostra que o Brasil pode ocupar um papel mais ativo, desde que articule política industrial, financiamento e universidades. Em vez de apenas exportar recursos, o país teria a chance de capturar valor na economia do conhecimento.

Em última análise, a disputa científica entre China e Estados Unidos não deve ser vista apenas como um confronto entre potências, mas como uma janela de oportunidade para países intermediários. Se souber alinhar sua riqueza mineral com uma estratégia de desenvolvimento científico, o Brasil pode transformar um ativo geológico em um ativo intelectual. O futuro da ciência global talvez esteja menos na hegemonia de um único país e mais na capacidade de construir redes — e é justamente aí que reside a escolha estratégica brasileira.

Fontes
https://www.estadao.com.br/opiniao/as-universidades-chinesas-no-topo/?srsltid=AfmBOorQSH7MjdqYZ2ERTBNsl_7CgjSsjf-xI5vLvZicF-ORvzUzCfiq
https://www.youtube.com/watch?v=2RsCEZcZebs

terça-feira, 17 de junho de 2025

 

Renovar para Crescer: A Importância de Incentivos Exclusivos para Pesquisadores Não Consolidados

A ciência é o motor do desenvolvimento de qualquer nação. Contudo, o sucesso de uma política científica não depende apenas do volume de recursos investidos, mas principalmente de como esses recursos são distribuídos. No Brasil, é notório o fenômeno da concentração de recursos nas mãos de grupos consolidados, muitas vezes vinculados a grandes universidades e centros tradicionais de pesquisa. Enquanto isso, jovens pesquisadores lutam por espaço, reconhecimento e autonomia. É chegada a hora de discutirmos com seriedade a necessidade de editais e programas exclusivos para pesquisadores não consolidados, com regras claras que impedem a participação ou influência direta de pesquisadores já consagrados.


Não se trata de desvalorizar os pesquisadores consolidados. Muitos deles construíram carreiras admiráveis e desempenham papéis importantes na ciência nacional. O problema reside na estrutura viciada e concentradora, onde os mesmos nomes ocupam, ano após ano, os mesmos espaços de liderança, financiamento e prestígio. Isso cria um ciclo vicioso de privilégio acadêmico, onde jovens talentos permanecem à sombra, muitas vezes trabalhando como coadjuvantes em projetos cujos méritos acabam apropriados por figuras mais influentes. Além disso, a influência informal dos pesquisadores seniores em editais supostamente abertos gera distorções graves no processo de avaliação. Essa influência, por vezes velada, mina a credibilidade do sistema e sufoca a renovação científica.

A criação de editais exclusivos para jovens pesquisadores é uma política que visa corrigir esse desequilíbrio. Programas como esse não são um ataque ao mérito, mas sim um investimento estratégico no futuro da ciência brasileira. Garantir que esses pesquisadores possam liderar projetos de forma autônoma é fundamental para o surgimento de novas linhas de pesquisa, novas abordagens e novas lideranças acadêmicas.

É essencial, porém, que esses editais tragam uma regra explícita: pesquisadores já reconhecidos como bolsistas de produtividade ou líderes consolidados não devem participar — nem como coordenadores, nem como co-coordenadores. Podem, no máximo, atuar como consultores ou colaboradores externos sem poder de decisão. Essa medida rompe com a lógica do apadrinhamento e da tutela, permitindo que novas ideias floresçam por seus próprios méritos.

Alguns críticos podem argumentar que impedir a participação de pesquisadores experientes pode isolar jovens pesquisadores. Essa preocupação é válida, mas facilmente contornada: o diálogo e a colaboração continuam possíveis, desde que os papéis estejam claros e a liderança seja efetivamente do jovem pesquisador. Além disso, esses editais podem prever programas paralelos de mentoria formal, onde a troca de experiência é estimulada, mas a autonomia científica do pesquisador emergente é respeitada.

O dilema que se apresenta é claro: ou o Brasil aposta em uma renovação efetiva de seu quadro científico ou permaneceremos reféns de uma estrutura concentradora e, a longo prazo, estagnada. A inovação nasce da diversidade de perspectivas, e isso só é possível quando novos pesquisadores têm espaço real para construir seus próprios caminhos.

Incentivar jovens pesquisadores com editais independentes e regras claras contra a captura por grupos consolidados é uma medida urgente para democratizar o acesso aos recursos, descentralizar o conhecimento e garantir que a ciência brasileira seja, de fato, um reflexo plural de sua sociedade. Se queremos futuro, precisamos renová-lo hoje.

Darwin Sagan


segunda-feira, 16 de junho de 2025

 Inteligência Artificial no Ensino Superior Brasileiro: Avanços, Desafios e Perspectivas




O uso de inteligência artificial (IA) no ensino superior brasileiro já é uma realidade, ainda que desigual e marcada por incertezas. A ascensão das ferramentas de IA generativa, como o ChatGPT, despertou entusiasmo e preocupação em universidades públicas e privadas. No entanto, é necessário refletir criticamente: a inteligência artificial está promovendo inovação pedagógica real ou apenas automatizando processos sem transformação efetiva?

Experiências recentes mostram que a IA pode atuar positivamente na personalização do ensino, no apoio a pesquisas acadêmicas e na automatização de tarefas administrativas. Por exemplo, universidades já podem utilizar sistemas de IA para auxiliar desde o atendimento ao aluno até a análise preditiva de evasão acadêmica. Ademais, ferramentas como assistentes virtuais e plataformas adaptativas demonstram potencial para tornar a jornada acadêmica mais eficiente e personalizada.

Também é importnate dizer que  o uso estratégico de inteligência artificial pode contribuir diretamente para aumentar a escalabilidade do ensino superior no Brasil. Em um país com grandes desafios de acesso à educação, sobretudo em regiões periféricas e interioranas, a IA pode viabilizar a ampliação da oferta de cursos, facilitar o atendimento individualizado a um número maior de estudantes e apoiar a formação de turmas maiores sem perda de qualidade. Plataformas inteligentes podem ajudar professores a administrar conteúdos e feedbacks de forma mais eficiente, permitindo que mais brasileiros ingressem e permaneçam no ensino superior.

Por outro lado, o uso indiscriminado de chatbots na produção de textos acadêmicos levanta questões éticas profundas. Afinal, como garantir a autoria e a integridade intelectual diante de textos produzidos por máquinas? Professores relatam dificuldades em avaliar trabalhos cujos limites entre autoria humana e auxílio automatizado tornam-se nebulosos.

Outro ponto crítico é a desigualdade no acesso às tecnologias. Enquanto algumas universidades particulares já incorporam sistemas avançados de IA em suas plataformas, muitas instituições públicas lutam contra a precarização e a falta de recursos. Essa discrepância pode aprofundar as desigualdades educacionais, contrariando o princípio constitucional de igualdade no acesso à educação.

Além disso, falta uma regulamentação clara sobre o uso da inteligência artificial na educação superior brasileira. O debate no Conselho Nacional de Educação e no MEC ainda é incipiente, deixando docentes e gestores sem diretrizes sobre práticas adequadas, limites e responsabilidades. Sem essa regulamentação, os riscos de uso inadequado aumentam.

Convém destacar que os professores não precisam ter medo de perder seus empregos por causa da inteligência artificial. Pelo contrário: as tecnologias ampliam o papel do docente como mediador, curador e facilitador de conhecimento. A IA pode automatizar tarefas repetitivas, mas jamais substituirá a sensibilidade, o olhar crítico e a capacidade de adaptação que caracterizam o bom educador. O professor será cada vez mais necessário para orientar os alunos a usarem as ferramentas tecnológicas de maneira ética, reflexiva e criativa.

Contudo, o problema não está na tecnologia em si, mas no modo como a incorporamos à prática pedagógica. A IA não substitui o professor, nem resolve sozinha os desafios educacionais históricos do Brasil. Pelo contrário: exige um corpo docente mais preparado para guiar os alunos no uso ético, crítico e criativo dessas ferramentas.

O ensino superior brasileiro precisa avançar para um modelo em que a IA seja aliada, e não muleta. Para isso, é urgente investir em políticas públicas de inclusão digital, formação docente contínua e desenvolvimento de ferramentas educacionais que respeitem a diversidade cultural e social do país. Em síntese, sem planejamento e reflexão crítica, a inteligência artificial pode se tornar mais um instrumento de exclusão. Com responsabilidade e diálogo, pode transformar o ensino superior brasileiro em um espaço mais inclusivo, inovador e democrático.

Darwin Sagan

domingo, 24 de outubro de 2021

Ensino Superior na Pós-Pandemia do COVID-19

                    Vivemos ainda em período de pandemia. Mas temos algumas estatísticas que já nos permitem conjecturar de forma otimista que caminhamos para o seu fim.  Então, apesar de ainda não termos essa certeza absoluta, permita-me  dialogar e refletir com você sobre como será o Ensino Superior na Pós-Pandemia do COVID-19. 




            Minha exposição a seguir se baseará em destaques de alguns trechos de artigos (reportagens, opiniões, ideias etc.) que li e apreciei (independentemente de estar em acordo ou desacordo). Creio peremptoriamente que também evoluímos quando lemos algo que de antemão discordamos. Não significa que com isso necessariamente mudaremos de opinião ou que estejamos em dúvida sobre o que pensamos. Não é um disputa para se saber quem está certo. Trata-se apenas de um exercício intelectual visando ao desenvolvimento do melhor pensar e compreender.

1- A pandemia promoveu uma revolução na percepção de estudantes e professores quanto às formas de aprendizagem: aulas remotas, disciplinas online, sala de aula invertida, simuladores virtuais, apps e outros gadgets entraram em cena e uma “revolução inovadora” chegou na maioria das instituições de educação superior no Brasil. O ensino híbrido passa de uma tendência para uma realidade consensuada que as IES estão adotando.(2 de junho de 2021)

2- No mundo pós-pandemia, para garantir o engajamento do estudante e ao mesmo tempo motivá-lo a esta nova forma de educação, será necessário a apresentação de um currículo personalizado, chamativo e ao mesmo tempo envolvente. Serão novos tempos, com diferentes desafios e o ensino precisará fomentar a esperança com possibilidades reais de inovação e transformação da sociedade. Todo o mercado mudou e com a educação não foi diferente. Temos novas tendências e inspirações para (re)significar a educação do Brasil. (13 de janeiro de 2021).

3- Por razões econômicas, o setor privado já tinha avançado muito no EAD. Enquanto isso, o setor público se manteve no presencial. Como a transição entre as modalidades é complicada, o momento é de paralisia no ensino público. Quando essas universidades se veem em uma situação de isolamento social, é uma novidade ter que introduzir novas tecnologias, novas maneiras de ensinar e de manter o contato a distância. Vai ser um retorno difícil e lento em que várias modificações podem ocorrer. Haverá um sistema público com muito mais restrições financeiras e que vai precisar se reinventar de alguma maneira. E, evidentemente, as novas tecnologias podem ajudar. (22 de abril de 2020).

4- Durante a pandemia do coronavírus ficou ainda mais nítida a relevância do ensino superior do ponto de vista individual e coletivo: os profissionais mais capacitados tiveram melhores remunerações e condições de trabalho, além de, em muitos casos, utilizaram seu conhecimento para a produção de vacinas, estudos genéticos e diversos outros que contribuíram coletivamente. No pós-pandemia, essa importância só tende a se intensificar, tanto pela expansão do EAD e demais tecnologias educacionais quanto pela maior valorização e financiamento que devem ocorrer nas áreas de pesquisa. (14 de junho de 2021).

5- O ensino híbrido (blended learning) é uma modalidade que une as aulas presenciais e propostas online de forma complementar para oferecer experiências mais enriquecedoras para os alunos. Esse modelo é facilitado pelo uso das novas tecnologias na educação e pela internet. Assim, alunos e professores se comunicam, trocam materiais e fazem as atividades propostas. O aprendizado híbrido na pandemia é um método que ajuda os alunos a conhecerem melhor seu ritmo e tempo para absorver novos conceitos. Além de permitir que os alunos vejam a internet como uma forma de enriquecer o ensino com mais facilidade. Isso traz ainda mais autonomia, o que é uma característica importante para que os alunos evoluam e consigam se empenhar mais para aprimorar seus interesses de estudo. (7 de junho de 2021).

               Como dito em postagem anterior a esta, se for possível, peço que você leia os artigos (ideias, reportagens etc.) acima na íntegra para formar sua opinião, e termino este texto deixando-o com os seus pensamentos. Ressalto que não tenho a intenção de convencimento, mas apenas contribuir sobre um tema que julgo ser tão importante: como melhor escolher/aprimorar as metodologiass aplicáveis no Ensino Superior agora (durante a pandemia) e, naturalmente, no período pós-pandemia.

Um grande abraço e fiquem com Deus.

Carlo Kleber da Silva Rodrigues (carlokleber@gmail.com)



quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Quais as metodologias aplicáveis ao Ensino Superior na Pandemia?

                     Existe em curso uma discussão instigante sobre as metodologias que devem ser utilizadas para um efetivo processo ensino-aprendizagem no Ensino Superior devido à pandemia do COVID-19, buscando evitar-se particularmente a evasão escolar. Neste contexto, o mundo acadêmio viu então emergir um incontável número de soluções para resolver a questão do distanciamento social, então imposto pelos protocolos de saúde elaborados pelas autoridades públicas.



                    Há naturalmente de se reconhecer a grande contribuição que especialistas estão ofertando à sociedade em um momento tão difícil e, até certo ponto, aterrorizante. Tudo que desconhecemos, certamente tememos (e muito). Todavia, em meio a esse novo modus operandi, gostaria que me permitisse compartilhar uma preocupação que sempre acompanhou-me em meus muitos anos de docência: a infantilização metodológica do Ensino Superior. Meu objetivo neste texto não é julgar metodologias, mas apenas alertar para a necessidade de uma criteriosa análise antes da adoção de uma solução. 

                Nesse sentido, tomemos como base a definição de Ensino Superior da Wikipédia, que para o efeito pretendido é suficiente e de ponto pacífico: "O ensino superior, educação superior ou ensino terciário é o nível mais elevado dos sistemas educativos, referindo-se normalmente a uma educação realizada em universidades, faculdades, institutos politécnicos, escolas superiores ou outras instituições que conferem graus acadêmicos ou diplomas profissionais."

            Creio ser bem razoável supor então que as fases anteriores (Ensino Fundamental e Ensino Médio) foram devidamente cumpridas e que os egressos gozam perfeitamente das capacidades e habilidades lá ensinadas. A expectativa decorrente é que no Ensino Superior os discentes sejam então mais capazes de desenvolver novos cohecimentos de forma independente, autônoma e responsável, observando especialmente os seguintes três domínios cognitivos: Analisar, Avaliar e Criar

            A discordância do anterior simplesmente nos levaria a uma discussão interminável sobre direitos e deveres do cidadão, bem como do papel do Estado em todo esse processo. Furtarei-me propositalmente de enveredar por esse caminho, atendo-me apenas à reprodução  de três pequenos trechos de artigos publicados sobre essa infantilização, já observada bem antes da pandemia e que pode vir a ser agravada, caso não seja devidamente lembrada.

Trecho 1:

"Nas universidades ou politécnicos, a responsabilidade de motivar não deve caber ao professor. A tese é defendida por Carlos Fiolhais, físico, docente e divulgador de ciência. Afirma que, por oposição ao ensino básico ou secundário, onde “os alunos têm que ser dirigidos”, a frequência no ensino superior significa autonomia." (Camilo Soldado, 25 de outubro de 2015).

Trecho 2:

"Espero que na Universidade pública não cheguemos ao ponto de propor uma reunião de pais. Pelo andar da carruagem, no entanto, já não seria de se espantar. Como antídoto, poderíamos levar estudantes e nós mesmos um pouco mais a sério, tratando-os e tratando-nos como adultos, não apenas aptos a reproduzir uma opinião sobre algo (ou sobre “tudo”), mas formados para enfrentar o conhecimento e as problemáticas sociais com disciplina, esforço analítico e capacidade reflexiva. Não é tão complicado, basta que a Universidade aposte naquilo que é seu papel, que não é o de vender entretenimento, nem de agradar a clientes. Para isso é preciso renunciar à sedução gozosa da infantilização. Mas é que talvez isso não seja tão fácil. (Alexandre Fernadez Vaz, 27 de março de 2015)".    

Trecho 3:                

"O Jornal Folha de São Paulo do último domingo, dia 22 de março, torna alarmante o que nós, professores universitários, já sabíamos e temíamos. Cresce o número de alunos cada vez menos autônomos nas universidades públicas e privadas. Não bastassem controlarem os boletins e notas dos filhos pelos sites de internet disponibilizados nos portais das faculdades, os pais agora querem reuniões frequentes com os professores e diretores, ademais de darem palpites nos programas acadêmicos e acompanharem os filhos nos processos de adaptação ao novo ambiente universitário.  (Maristela Basso, 24 de março de 2015)." 


        Se for possível, peço que você leia os artigos acima na íntegra para formar sua opinião, e termino este texto deixando-o com os seus pensamentos. Ressalto que não tenho a intenção de convencimento, mas apenas contribuir sobre um tema que julgo ser tão importante: como melhor escolher/aprimorar as metodologiass aplicáveis no Ensino Superior agora (durante a pandemia) e, naturalmente, no período pós-pandemia.


Um grande abraço e fiquem com Deus.

Carlo Kleber da Silva Rodrigues (carlokleber@gmail.com)


                

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Ensino Superior: Onde estamos e aonde vamos?

           Gostaria de compartilhar com vocês três subtemas que imagino que devem analisados, dentre tantos outros, quando falamos sobre o futuro do Ensino Superior em nosso país. Faço a exposição com base em fragmentos de reportagens ou artigos a que tive acesso, cujos conteúdos originais em sua inteireza estão nos hiperlinks disponibilizados. Evidencio que não tenciono propor diretrizes formais, tampouco soluções, apenas busco oportunizar-lhes alguma reflexão.




  1. Metodolodias ativas:  aprendizado baseado em Problemas (PBL) é uma metodologia ativa de ensino onde os alunos ganham conhecimento e habilidades enquanto resolvem problemasPBL integra saber e fazer. A metodologia prima pelo desenvolvimento de habilidades críticas de pensamento e resolução de problemasEnfatiza-se o aprendizado autodirigido. Ou seja, centrado no aluno, que passa a ser o principal gerador de conhecimento ao procurar ativamente a informação que necessita para resolver um determinado problema. O objetivo é que o aluno resolva tudo autonomamente. A função do professor neste sistema passa a ser, fundamentalmente, a de um orientador do trabalho dos alunos. Neste contexto, é importante destacar que o aluno é obrigatoriamante visto como alguém que compreende perfeitamente sua responsabilidade, não cabendo mais posturas que supõem que o professor deve fiscalizar suas ações para garantir que este (o aluno) esteja de fato cumprindo o seu papel. Além disso, reforça-se a ideia da aprendizagem continuada, ou seja, aprender por toda a vida, e de cursos de menor duração que o tradiconal modelo empregado em grande parte das Instituições de Ensino Superior (IESs) do País. 
  2. Competências e não apenas títulos: colecionar apenas títulos e mais títulos não deve ser uma conduta estimulada. Mesmo os mais bem qualificados profissionais têm dificuldades para encontrar um emprego no País. Por isso, não é exagero afirmar que o Brasil está formando mestres e doutores para o desemprego. A frase é de Silvio Meira, professor do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Escola de Direito do Rio da FGV. Os números demonstram isso friamente: enquanto no mundo a taxa de desocupação desse grupo gira em torno de 2%, por aqui, a média é de 25%. Os mestres estão em situação ainda pior: 35% fora do mercado de trabalho. Simplesmente ser detentor de um título não é o suficiente para a empregabilidade desejada. Nesse sentido, apesar de ser uma realidade por vezes cruel, deve-se verificar o que de fato a sociedade precisa naquele momento de sua evolução, ou seja, ter-se a devida consciência situacional.                                              
  3. Impacto do Ensino Básico no Ensino Superior: o anuário brasileiro da educação básica, divulgado no dia 25 deste mês, mostra que, em 2018, quatro em cada dez professores não tinham a formação adequada para o que ensinavam no sexto e também no nono ano do fundamental. Segundo o levantamento, quase 38% dos docentes do fundamental não fizeram o curso de licenciatura ou a complementação pedagógica necessária para ensinar uma disciplina específica. No ensino médio, o índice chegou perto dos 30%. Quem reuniu e analisou os dados destaca ainda a falta de condições de trabalho para os professores nas escolas públicas e os baixos salários. Fatores que explicam o abandono da profissão de professor e a falta de atrativos para que os estudantes com as melhores notas se dediquem à missão de ensinar. Nesse sentido, é preciso bem esclarecer que, se o aluno do Ensino Básico não tiver a adequada preparação, então é óbvio que o aluno do Ensino Superior também não terá a devida formação. Simplesmente acreditar que mecanismos de seleção mais rigorosos para acesso ao Ensino Superior evitaria essa tragédia é ilusório: as IESs necessitam do aluno (bem ou mal formado) para justificarem a sua existência. Esta é a realidade.

      Como disse ao início, não tinha a intenção de propor soluções ou diretrizes para o Ensino Superior do nosso país. Mas creio que estas certamente podem se originar a partir do momento em que melhor reconhecemos os verdadeiros desafios a serem enfrentados.



Carlo Kleber da Silva Rodrigues

carlokleber@gmail.com


quinta-feira, 30 de agosto de 2018

A Escola do Futuro?



A Educação tem sido um tema de discussão recorrente em nossa sociedade. Novos paradigmas  têm sido alvo de análise e, por vezes, indicados a serem seguidos. Para efeito de uma exposição sintética, comento sobre dois artigos que selecionei por crer que os mesmos conseguem reunir algumas das ideias que mais são aventadas visando a uma educação do futuro. 

O primeiro artigo é uma entrevista com a psicóloga Cecília Waismann da empresa MindCet. Ela diz que os alunos lidam com um sistema de ensino obsoleto, e que isso ocorre em todas as partes do mundo. O déficit de atenção é inclusive visto como uma reação saudável ante classes com processos de aprendizagem antiquados. Neste contexto, ela menciona que o núcleo em que trabalha foi pensado justamente para criar soluções que reduzem o gap entre o sistema educativo e o aluno.  

Ela explica que essas soluções são baseadas na cultura do empreendedorismo e das startups, empresas que, com muita tecnologia, estão revolucionando a indústria – seja ela automobilística, petrolífera, têxtil e, claro, educacional. Quando  uma empresa desenvolve uma nova tecnologia voltada à gestão ou ao varejo, faz-se uma parceria para estudar a solução de modo a também aproveitá-la à educação. Segundo ela, o grande problema para universalização desse paradigma são os governos burocráticos, que gastam um pressuposto importante para manter toda a estrutura do jeito que ela é. Ela diz que transformar essa lógica não é fácil, porque também envolve uma mudança de mindset de professores, diretores e pedagogos que dependem do sistema atual. 

O segundo artigo trata de percepções originadas a partir de uma viagem (missão educacional) realizada pela pedadgoga Maristela Castro e pelo pós-doutor em educação Adelar Hengemühle.  Esta viagem deu-se a  Portugal, Inglaterra e Finlândia. Eles afirmam que mais da metade das profissões, como conhecemos hoje, será extinta quando os estudantes da educação básica ingressarem no mercado de trabalho, e que, nesses países, o ensino foca no desenvolvimento de competências que fazem os alunos aprender a aprender. 

Dentre as ideias apresentadas nesse artigo, podemos destacar, por exemplo, as seguintes: maior foco nos objetivos educacionais e harmonia entre as esferas governamentais, escolas e faculdades; maior flexibilidade curricular; maior protagonismo do estudante; locais de estudo  produzidos por arquitetos e professores; antecipação de tendências e preparação de estudantes para novas profissões; e alunos e professores se deslocando por ambientes além dos muros das escolas, como museus e espaços abertos.

Verdadeiramente, são posicionamentos que muito colaboram para a visão das escolas do futuro. Eu gostaria apenas de acrescentar aquilo que chamo de consciência situacional. Isso significa perguntar e responder objetivamente e concisamente as seguintes questões: Qual o IDH  da região em que resido? Qual o salário do professor da escola onde estudo? Qual o plano de cargos e salários dos profissionais que atuam na escola onde estudo? Quais os valores,  a missão e a visão da escola onde estudo? Os professores e pesquisadores são valorizados, respeitados e bem vistos pela sociedade? Como e por que chegamos neste atual estágio de educação? As IES estão alinhadas com os objetivos do Estado? Algumas dessas perguntas têm sua essência na conhecida Pirâmide de Maslow, passando pelos pensamentos de Aldous Huxley, Paulo Freire, Zygmunt Bauman, .... ressalto que não se trata de concordar ou discordar desses pensadores, mas sim de refletir sobre tudo isso: é preciso saber de onde viemos, onde estamos e, especialmente, aonde queremos chegar. Seremos sempre reféns de nossas escolhas.


Carlo Kleber da Silva Rodrigues
carlokleber@gmail.com





terça-feira, 18 de abril de 2017

Tecnologias perdidas


  
Um dos problemas que os professores se deparam em sala é a significação dos conteúdos. Em rápidas palavras: qual a importância de estudar isto? Em um juízo de valor, acredito que isso ocorra porque a tecnologia atual leva a isso. Os dados estão, a cada dia, mais disponíveis. Sabemos o que queremos graças ao toque de um dedo na tela e uma conexão com a internet.

No entanto, dado não é informação. As pessoas acreditam (e as gerações mais novas não duvidam) que ter um smarthphone é suficiente para saber. Porém, como estudamos, dados são a celula mater da informação, do conhecimento e da sabedoria. Ou seja, não adianta uma série de dados, jogados por buscadores, se não se sabe o que fazer com eles.

Um estudante acredita que fazer suas avaliações, popularmente (ou não) conhecidas como provas, seja a sua necessidade vital. Por isso, o Google e o Youtube resolvem seus problemas. Porém, como vi em uma reportagem divulgada em uma emissora de televisão aberta, os jovens são capazes de maravilhas no acesso digital. Mas, quando se pede para que redijam um texto simples, a coisa fica feia.

Outra coisa importante é o esforço. Ou a falta dele. A tecnologia, que apoia tanto o aluno, fez com que ele desaprendesse a pesquisar. A buscar por dados se tornou mais fácil. Sabemos, por experiência, que a Humanidade, à medida que descarta uma tecnologia, ou um conhecimento, por um mais atualizado, esquece o anterior. Porém, várias vezes, essa necessidade retorna. Por conseguinte, o Homem precisa retomar, ou redescobrir, essa expertise, senão gastará esforços.

Uma das expertises perdidas é o próprio esforço na pesquisa. Muitos alunos pasmem, não sabem nem procurar um capítulo em um livro. Vários desaprenderam a utilizar um sumário, em buscar a página necessária no início do livro. Assim, transfere ao professor, seu mecanismo de busca, o Google da sala de aula, a responsabilidade de buscar a resposta. Ou seja, pesquisar é uma tecnologia perdida.

Isso se refletirá nas avaliações. A política do videogame, de pontuar, muitas vezes, um movimento do mouse, fez com que os alunos substituíssem o resultado pelo esforço. Ou seja, ele acredita que necessita de premiação caso escreva qualquer coisa em sua avaliação. Independentemente de aquela resposta estar completamente errada. Portanto, seu esforço seria o alvo de prêmio, embora não o conduzisse a nenhum lugar.

Outra tecnologia perdida é a da memória. Muitas vezes os alunos não se lembram nem o que comeram no café da manhã. Os dados passaram a ser irrelevantes. Guardá-los se transformou em algo sem importância porque, caso fosse importante, eu acharia no Google. Assim, os alunos se transformarão em profissionais extremamente conectados, mas, muitas vezes, incapazes de tomarem decisões. Por que? Por falta de desenvolvimento de seu pensamento analítico.


A Humanidade provou, por séculos, sua capacidade de se reinventar. Creio que o Homem chegará a uma solução para esse problema. Pois, como dizia Darwin, o mais apto sobreviverá. Esperemos que não seja necessário que o Homem desaprenda muito para que não tenhamos que reaprender muitas coisas. Sempre haverá uma esperança.

Prof. Luiz Augusto ( prof.luau@gmail.com )

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Como formar um bacharel em Ciência da Computação?


       


     
        Criaria um curso de quatro anos. Esse curso seria dividido em dois ciclos sucessivos: um ciclo essencial e um ciclo específico. O primeiro ciclo teria a duração de três anos e o segundo de um ano. Ao término do ciclo essencial, o aluno já receberia um título de nível superior, como de Tecnólogo em Ciência da Computação. Seguir adiante para obter o título de Bacharel em Ciência da Computação seria opção do aluno.
       
           As disciplinas do ciclo essencial forneceriam a base do conhecimento de um cientista da computação. Já aquelas do ciclo específico se voltariam para mais especialmente atender à vocação individual do aluno. Ambos ciclos estariam alicerçados por uma visão sistêmica, enfatizando interdisciplinaridade, transdisciplinaridade e educação continuada. Seria bem natural inferir-se que as disciplinas do primeiro ciclo seriam menos afetadas pela evolução científica e tecnológica da sociedade, enquanto que aquelas do ciclo seguinte estariam mais reféns dessa evolução, que transforma a sociedade em um ritmo alucinante.

             Extrapolando o viés de proposta e partindo-se para uma implantação do modelo, há quatro entidades que me parecem candentes de serem consideradas: professor, aluno, escola e sociedade. Todos são igualmente  bem complexos. O professor do primeiro ciclo tem como marca de seu perfil a preocupação de garantir que a base do conhecimento seja a mais perfeitamente aprendida. Essa base impõe que o aluno esteja pronto não apenas para reproduzir conhecimento, mas sim que seja capaz de pensar e criticar o que se aprende. Conhecer, Compreender, Aplicar, Analisar, Avaliar e Criar  são os níveis de desempenho a serem atingidos.
           
            Com relação ao professor do segundo ciclo, entendo que a dinâmica instalada faz com que sua preocupação esteja em estar atento para escutar o que a sociedade precisa e deseja. É possível inclusive imaginar que as aulas nos moldes tradicionais devessem ceder espaço para atividades extraclasse realizadas em empresas convergentes para a área de interesse do aluno, e que as apresentações de conteúdo fossem ministradas por profissionais com Notório Saber.

            O aluno já foi tratado como entidade passiva. Hoje assume um papel bem mais protagonista. Esse novo cenário garante-lhe de forma justa direitos de decisão, mas traz-lhe também grandes responsabilidades. É bem possível que esse amadurecimento que lhe é imputado esteja sendo prejudicado por uma percepção ainda infantilizada por parte da própria escola, a qual agoniza para sobreviver e se vê pressionada pela sociedade para fornecer resultados. A adultização do processo ensino-aprendizagem é imprescindível para que o sistema integrado evolua.

           Dentre as quatro entidades, a escola e a sociedade são aquelas que mais devem parecer uma só no processo sistêmico de ensino-aprendizagem, tamanha a interdependência entre elas. Deve ser difícil estabelecer fronteiras entre elas, fazendo com que os papéis, obrigações e responsabilidades se confundam no processo ensino-aprendizagem. Isso vai ter uma influência decisiva no sucesso a ser alcançado extamente no ciclo específico, onde se espera que os professores sejam profissonais de Notório Saber, criando um ambiente mais articulado, diversificado, inovador, interdisciplinar e, muitas das vezes, transdisciplinar.

         Parece fácil implantar esse modelo, mas não é. Esse modelo não é inédito, tampouco original. Essa ideia já está inclusive apresentada, detalhada e defendida em muitos dos programas pedagógicos de escolas que nasceram neste século. Quais são as dificuldades então? Três das mais abrangentes e visíveis são: os recursos públicos destinados às escolas federais e estaduais têm progressivamente minguado; os programas  de financiamento de alunos de graduação em escolas privadas têm sido reduzidos; e as escolas privadas têm tido uma redução sistemática no número de alunos matriculados.

          E qual a solução? O Estado brasileiro precisa avocar para si a responsabilidade de ser o protagonista principal dessa transformação que é inevitável. O Estado deve convocar essas quatro entidades (i.e., escola, aluno, professor e sociedade) e dialogar para estabelecer objetivos, indicadores e metas claras. Não se pode ficar parado diante de algo que é dinâmico, que muda rapidamente, que é, em última análise, completamente líquido, conforme discorrido por Zygmunt Bauman. Ou a transformação ocorre de maneira endógena e, portanto, planejada, ou ocorre de maneira exógena e, portanto, traumática e, desta forma, mais alinhando-se ao hipotético Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. O imobilismo leva ao esgotamento do modelo em vigência, pois a obsolescência não é mais um acidente, mas sim inteiramente previsível e até planejada.

Prof. Carlo Kleber da Silva Rodrigues. 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Cultura Urbana Como Agente da Redução da Violência Entre Jovens


           

            A Cultura ou Arte Urbana tem seu embrião na Idade Média com a Arte Gótica, mais especificamente entre os séculos XII e XIV em países como Inglaterra, Alemanha e França. Obras de artistas que deixaram sua marca na história da arte, confrontando o modelo usual de comercialização ou intervenção artística nos diversos segmentos. 

            Já no século XX,  a Cultura Urbana começa a realizar inferências também na arquitetura, pintura e escultura. Na década 70 surge o movimento da Disco Music com os primeiros resquícios de Música Eletrônica que surgiu na periferia de bairros dos Estados Unidos passando a ser apreciada também nos grandes centros urbanos. No final deste período surge um outro movimento cultural chamado de Hip Hop que teve como um de seus precursores do artista Afrika Bambaataa que associa a dança de rua, a arte visual do Grafite, o MC (Mestre de Cerimônia) que realiza a apresentação dos artistas e a interação com o público com rimas realizadas na hora, e a figura do DJ que é o artista que executa músicas por meio de equipamentos analógicos e eletrônicos.

            O artista Basquiat começou sua Carreira em 1977, realizando intervenções em muros e demais espaços urbanos de Nova York. Foi amplamente representado pelo Punk Rock, contando com a espontânea militância que pintava muros com frases de efeito de protesto ou as imprimiam em cartazes, conhecidos como pôster bombs. Já nos anos de 1980, com a apogeu da cultura pop norte-americana, no Brasil destaca-se um Rock tipicamente nacional, com letras em resposta à censura e ao cenário político em vigência. Esta linguagem artística traz à atualidade uma abrangência significativa, uma vez que, não é raro, vermos estátuas vivas, músicos, malabares e atores performáticos ganharem as ruas.

            A Música Eletrônica, movimento que agrega a cultura de paz por meio da música. O Hip Hop, movimento que tem como uma de suas premissas tornar as expressões artísticas uma fonte de recuperação e redução de danos, no que tange à vulnerabilidade da juventude com relação à opção da criminalidade nas áreas periféricas. O Rock também tem várias vertentes, embora seja mais pautado na música e se organiza constantemente em espaços públicos no intuito de expressar músicas de caráter autoral, ou seja, músicas compostas pelos próprios intérpretes.

            A indústria tem mudado bastante e ignora essas modalidades musicais, porém, a região serrana do Distrito Federal tem rica e constante produção artística nesses segmentos. A música dentro da cultura de um povo serve como um agente de transformação social, pois também gera emprego e renda. Também um é um agente auxiliar na redução da criminalidade e da violência.

            São realizadas várias ações dentro e fora do Distrito Federal por Associações (ONGs, Coletivos Culturais e outros grupos)  que se organizam para desenvolverem e promoverem atividades voltadas para os mais diferentes segmentos da Cultura Urbana tais como: Música (Música Eletrônica, Hip Hop, e Rock), Dança (Break, Dança Charme e Dança de Rua), Pintura, Grafite, Esculturas, Malabares , Estátuas Vivas, Teatro de Rua, Slackline, e Le Parkour.

            Em um momento que a sociedade brasileira se encontra fragilizada socialmente devido ao envolvimento de jovens com a criminalidade, o tráfico de drogas e outros delitos, seria o momento mais que oportuno do Estado realizar parcerias e apoio a essas políticas socioculturais.  


Por: Rubino Ramos - Educador, Escotista, DJ, Produtor Cultural e Pesquisador de Culturas Urbanas. Com a colaboração de Ângelo Macarius, Cineasta, Compositor e Produtor Cultural. Professora Selma Frasão (Alub Concursos).

domingo, 22 de maio de 2016

Educação ou Cultura?



A chegada do vice-presidente da República, Michel Temer, ao poder, polarizou as expectativas nacionais em torno de uma série de modificações no panorama administrativo do Brasil. Um dos temas mais polêmico é a volta da Cultura, antes em um Ministério, para o Ministério da Educação. Uma série de artistas, com muita visibilidade no cenário midiático nacional, opôs-se ferrenhamente a essa medida.

A criação do Ministério da Cultura (MinC) se encontra no seguinte histórico:

O Ministério da Cultura foi criado em 1985, pelo Decreto 91.144 de 15 de março daquele ano. Reconhecia-se, assim, a autonomia e a importância desta área fundamental, até então tratada em conjunto com a educação.
A cultura, ademais de elemento fundamental e insubstituível na construção da própria identidade nacional é, cada vez mais, um setor de grande destaque na economia do País, como fonte de geração crescente de empregos e renda.
Em 1990, por meio da Lei 8.028 de 12 de abril daquele ano, o Ministério da Cultura foi transformado em Secretaria da Cultura, diretamente vinculada à Presidência da República, situação que foi revertida pouco mais de dois anos depois, pela Lei 8.490, de 19 de novembro de 1992.
Em 1999, ocorreram transformações no Ministério da Cultura, com ampliação de seus recursos e reorganização de sua estrutura, promovida pela Medida Provisória 813, de 1º de janeiro de 1995, transformada na Lei 9.649, de 27 de maio de 1998.
Em 2003, a Presidência da República aprovou a reestruturação do Ministério da Cultura, por meio do Decreto 4.805, de 12 de agosto.
(http://www.cultura.gov.br/historico)

O MinC existe para atingir objetivos. Qual é a sua missão?

O Ministério da Cultura é um órgão da administração pública federal direta que tem como áreas de competência a política nacional de cultura e a proteção do patrimônio histórico e cultural.
Por meio das metas do Plano Nacional da Cultura, o MinC trabalha a concepção de cultura articulada em três dimensões: simbólica, cidadã e econômica.
A dimensão simbólica aborda o aspecto da cultura que considera que todos os seres humanos têm a capacidade de criar símbolos que se expressam em práticas culturais diversas como idiomas, costumes, culinária, modos de vestir, crenças, criações tecnológicas e arquitetônicas, e também nas linguagens artísticas: teatro, música, artes visuais, dança, literatura, circo, etc.
A dimensão cidadã considera o aspecto em que a cultura é entendida como um direito básico do cidadão. Assim, é preciso garantir que os brasileiros participem mais da vida cultural, criando e tendo mais acesso a livros, espetáculos de dança, teatro e circo, exposições de artes visuais, filmes nacionais, apresentações musicais, expressões da cultura popular, acervo de museus, entre outros.
A dimensão econômica envolve o aspecto da cultura como vetor econômico. A cultura como um lugar de inovação e expressão da criatividade brasileira faz parte do novo cenário de desenvolvimento econômico, socialmente justo e sustentável.
(http://www.cultura.gov.br/o-ministerio)

As atividades do Ministério contam com sete secretarias para cuidar de suas atividades: Políticas Culturais; Articulação Institucional; Audiovisual; Cidadania e Diversidade Cultural; Fomento e Incentivo à Cultura; Educação e Formação Artística Cultural; e de Apoio a Projetos Culturais (http://www.cultura.gov.br/secretarias). Uma vista pelo endereço mostra que três das sete secretarias não funcionam na Esplanada dos Ministérios, mas sim em um prédio provavelmente alugado.

A missão do MinC mostra que uma série de iniciativas da cultura brasileira se colocam como importantes para a preservação do patrimônio cultural do Brasil. Porém, este autor acredita que a separação de esforços em dois lugares diferentes pode ser uma medida que não contribua para a efetividade de sua atuação. O próprio histórico das mudanças ocorridas com o MinC aponta que não se sabe, administrativamente, onde é o seu lugar.

Os professores, em sala de aula, sabem que a formação dos nossos alunos em cidadão plenos é uma mescla das atividades discentes, em sua série de conteúdos, e suas atividades culturais de identificar, apropriar, defender e propagar as manifestações culturais materiais e imateriais brasileiras. Ou seja, o cidadão completo é o que se forma dentro e fora das paredes da escola.

Assim, em um país carente de recursos, os esforços organizados, planejados, interdisciplinares, farão, em tese, que o que se ensina em sala se continue a ensinar fora de sala. Como queremos que uma biblioteca, um museu, um teatro, uma exposição, uma sinfonia, seja valorizada, se isso não se planeja a apresentar aos alunos em todas as escolas.

Muitos se enganam que o comum é relegar a cultura, que as pessoas não são capazes de apreciar um Bach ou uma Frida Khalo. Andando por Brasília se verifica muitas pessoas, de áreas carentes da Capital Federal, visitando exposições de uma localidade de poucos anos e de pouca história cultural. Não se engane o leigo de que é só uma luta por verbas da Lei Rouanet. É algo mais amplo.


Por isso, defendo um planejamento, não a fusão. Toda mudança administrativa é inócua se os objetivos a perseguir não são mais amplos, mais profundos, mais grandiosos. Caberá ao Executivo Federal pensar políticas de cultura e execução de uma forma mais ampla, O cidadão se forma com ambas as vertentes. Por isso não se possui, até agora, um brasileiro comum preservando a educação e a cultura.

Prof. Luiz Augusto (prof.luau@gmail.com)

terça-feira, 29 de março de 2016

Falar e Entender






Passei quinze dias andando por várias cidades da Itália. Sempre tive muita curiosidade em ver várias cosias que só conhecia ou por meio dos livros ou da televisão. Com certeza é muito bom estar nos lugares onde a história aconteceu e se passou. Ver os rios, as cidades, as praças, o casario, as pontes, as torres, dentre outros marcos.

Estar em outro país, porém, não são somente flores. Apesar de ser uma língua latina, não é simples entender e falar o italiano. Muitas vezes foi preciso pedir ajuda ao inglês para me fazer entender. Seja para pedir uma informação, seja para almoçar. Esperando, é claro, que as outras pessoas também soubessem inglês.

Lembro-me quando embarquei no avião dos Transportes Aéreos Portugueses (TAP). Pus os pés no avião e fui recebido com um “bom dia”. Maravilha! Agradeci, vivamente agradecido, à comissária de bordo: “muito obrigado por ouvir de novo a minha língua!”. Um sentimento confortante de acolhimento tomou conta de mim. Nunca havia parado para pensar no significado do idioma para mim.

Muitas vezes os alunos não compreendem a importância de utilizarmos corretamente nossa língua. Sabemos que a obrigação de falar português, em substituição à língua indígena, falada no Brasil, foi uma imposição do Marquês de Pombal no século XVIII. Os jesuítas portugueses utilizavam a língua indígena para propagar o cristianismo, sem a preocupação de impor-lhes a língua.

Pombal nos fez capaz de falarmos e nos entendermos de norte a sul, de leste a oeste. Um brasileiro embarca num avião em Manaus, desembarca em Porto Alegre e consegue falar e ser ouvido. Retirados os devidos regionalismo, temos não dialetos, mas sim alguns significados diferentes. Mas estamos sob o império da mesma língua.

Os brasileiros possuem o hábito de receber bem. Procuram falar a língua do estrangeiro para que consigam se comunicar. Creio que isso só exista no Brasil. Andei por vários países no estrangeiro e não vi ninguém preocupado em falar português comigo. As pessoas, como vi no aeroporto de Guarulhos, certa vez, reclamam que não falem na sua língua, mas lá não falam a nossa.

Uma pessoa me disse que foi à Argentina e à França e tentou falar em espanhol e em francês. Disseram a ela: fale em inglês mas não maltrate a minha língua. Ou seja, os outros países fazem questão de falar bem o seu idioma. Não querem que ele seja falado de forma incorreta. Fazem questão que o estrangeiro não o macule.

Certa vez minha filha me perguntou por que precisava apender o português. Não entendia a gramática, as flexões, tempos verbais, entre outras coisas. Falei que precisamos nos comunicar. Para isso precisamos conhecer bem nosso meio de comunicação. Isso nos fará melhorar e utilizar, cada vez mais, e melhor, o nosso idioma.


Muitas vezes os nossos estudantes não entendem o significado e a preciosidade de falar português. Talvez, quem sabe, precisam ir ao estrangeiro e verificarem o que é entrar em um supermercado e não entender o que é aquele produto a sua frente ou como proceder para pagar pelos produtos que compra. Feliz foi a ideia da moeda. Mas o idioma é algo que muitas vezes não se compara.


Prof. Luiz Augusto ( prof.luau@gmail.com )

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Apoio à pesquisa: caminhos que não se encontram



Conversava com um amigo, também professor, sobre recente visita à Lisboa, capital dos portugueses. Verifiquei a bela cidade que o povo lusitano construiu. Impressionei-me com belas obras e monumentos e sob o sol de final de inverno sobre o rio Tejo. Sem dúvida, uma cidade de primeiro mundo. Lisboa possui excelente transporte urbano, sistema de segurança que funciona e limpeza nota dez.

Porém, meu amigo ressaltou a diferença entre os portugueses e os norte-americanos. Enquanto Portugal existe há mais de mil anos, os Estados Unidos da América (EUA) são um pouco mais novos que nós no Brasil. A diferença de idade entre os dois países, europeu e americano, não impediu que os estadunidenses estejam anos-luz à frente dos portugueses. Entre vários itens, repousa a pesquisa.

Os portugueses possuem apenas um ganhador de prêmio Nobel: José Saramago. Entretanto, os EUA possuem vários em física, química, economia, paz, etc. A diferença é gritante. Discutimos eu e meu amigo sobre essa diferença. Concluímos que a inclinação de cada um dos povos marcou o desenvolvimento distinto e os resultados obtidos.

Os portugueses são um povo guerreiro. Saíram de seu pequeno país, após séculos de luta com seus rivais espanhóis, e ganharam o mundo. Os portugueses são comerciantes por excelência e não se intimidaram em conquistar o oceano Atlântico (o “mar Tenebroso”), dobrar o cabo da Boa Esperança, singrar o Índico e chegar ao Japão (o Cipango).

Os norte-americanos, ao contrário, construíram seu país em cima da educação. Firmaram suas bases nas escolas, desde a colônia. Esclarecimento levava a Deus e depois ao progresso. Fizeram da pesquisa um item essencial na construção do conhecimento. Ensinaram, e assim continuam, a ensinar o passo a passo para se chegar às respostas das muitas perguntas que o mundo fez, faz e fará.

Portanto, montado sobre uma educação nos níveis equivalentes ao nosso Fundamental e Médio, públicos e de qualidade, facilitando o ingresso na escola para todos, proporcionando ensino de qualidade e sem cobrança de mensalidade escolar, criaram cidadãos conscientes da importância da educação em suas vidas. Portanto, pesquisar é uma característica dos norte-americanos.

Muito se diz que nos EUA seus cidadãos conhecem muito de seu país e nada dos outros. É recorrente a piada que diz que para um norte-americano a capital do Brasil é Buenos Aires. Nós rimos disso e nos gabamos de saber que a capital da Mongólia é Ulan-Bator. Brilhante! Claro que nós, com o PIB caindo, IDH miserável e inflação crescente somos mais espertos que os norte-americanos!

Eles utilizam seus especialistas, profissionais sérios e dedicados, que se dedicam a estudar os mais variados assuntos nas universidades. Assim, se o governo ou uma empresa precisa de um conhecimento específico contrata um consultor em uma faculdade. Sem nenhum problema. Ele presta seu serviço e o contratante paga seu serviço. Sem nenhum trauma.

Aqui eu conversei com um professor universitário com mais de trinta anos na sua universidade (federal). Perguntei por que nosso distanciamento da pesquisa realizada e os resultados obtidos. Meu questionamento básico era: por que nossa pesquisa contribuiu tão pouco para os setores públicos e privados?

Em linhas gerais, ele me disse que não temos essa cultura. Temos o órgão fiscalizador de pesquisa no Ministério da Cultura, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (CAPES). Porém, eles se comprometem apenas com o processo, fiscalizando produção de artigos e outras publicações. Porém, a priori, não verificam onde o produto dessa pesquisa se aplicará.

É claro que isso não é regra geral. Existem centros de pesquisa dedicados e que possuem resultados práticos. Porém, parecem ilhas de excelência num mar de produtos entregues para ninguém usar. Portanto, nossa pesquisa não possui muitos aportes de recursos porque não é considerada como pertinente ou útil para encontrar respostas.

Vejam o caso do conselho montado na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para introduzir mudanças na gestão do futebol brasileiro: além de dirigentes, existem vários jogadores. Não que eles não entendam de futebol, pois possuem renome. Mas, além de comentar sobre futebol, que estudos realizaram para melhorar a gestão do futebol? Que clubes geriram para mostrar sua capacitação?

Mais uma vez afastamos profissionais da área de administração, do desporto, que se dedicam ao estudo sério de vários assuntos e onde, seguramente, existe estudo e trabalhos sobre a gestão do desporto nacional. Seriam esses desconhecidos menos capacitados para oferecerem alternativas à crise que se desenhava no futebol e que culminou nos 7 a 1?


Ainda temos que caminhar muito para chegarmos num nível razoável. A educação continua como plataforma de campanhas, mas como uma das primeiras a serem esquecidas terminadas as eleições.

Prof. Luiz Augusto ( prof.luau@gmail.com )