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Ensino Superior no Brasil e no Mundo

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Conhecimento, poder e terras-raras: o Brasil diante da nova ordem científica global

 

A ascensão das universidades chinesas ao topo dos rankings globais de produção científica é um dos sinais mais claros da transformação geopolítica do conhecimento nas últimas décadas. Instituições do país passaram a ocupar posições de destaque em classificações baseadas em volume e impacto de pesquisas, refletindo uma estratégia nacional de investimento consistente em ciência, tecnologia e inovação. Esse movimento não é pontual, mas resultado de políticas de longo prazo e de um sistema acadêmico cada vez mais orientado por metas e desempenho.

Ao mesmo tempo, as universidades dos Estados Unidos continuam sendo referências históricas em excelência acadêmica, mas enfrentam desafios que vão desde mudanças nas políticas públicas até restrições orçamentárias e redução no fluxo de estudantes estrangeiros. Enquanto isso, a China amplia recursos e atratividade internacional, criando um ambiente que acelera a produção científica e reforça sua presença em áreas estratégicas. O contraste sugere que, mantido o ritmo atual, a liderança global no campo da pesquisa pode se deslocar progressivamente.

O avanço chinês não se explica apenas pelo aumento do financiamento, mas por um ecossistema que integra educação, política industrial e planejamento estatal. A aposta em setores como inteligência artificial, biotecnologia e energia cria um ciclo virtuoso: a pesquisa alimenta a inovação, que por sua vez retroalimenta o sistema acadêmico. Esse modelo fortalece a percepção de que a China está construindo uma infraestrutura científica capaz de rivalizar — e eventualmente superar — a norte-americana.

Nesse cenário de reconfiguração, o Brasil surge com uma oportunidade estratégica rara. O país detém reservas significativas de terras-raras, minerais essenciais para tecnologias avançadas, semicondutores e transição energética. A combinação entre esse patrimônio natural e a crescente demanda global por cadeias de suprimento diversificadas abre espaço para negociações internacionais mais equilibradas, especialmente com parceiros interessados em cooperação tecnológica.

A aproximação com a China, nesse contexto, poderia ir além do comércio de commodities e se traduzir em acordos de pesquisa, transferência de tecnologia e formação de capital humano. O debate sobre semicondutores e novas cadeias produtivas mostra que o Brasil pode ocupar um papel mais ativo, desde que articule política industrial, financiamento e universidades. Em vez de apenas exportar recursos, o país teria a chance de capturar valor na economia do conhecimento.

Em última análise, a disputa científica entre China e Estados Unidos não deve ser vista apenas como um confronto entre potências, mas como uma janela de oportunidade para países intermediários. Se souber alinhar sua riqueza mineral com uma estratégia de desenvolvimento científico, o Brasil pode transformar um ativo geológico em um ativo intelectual. O futuro da ciência global talvez esteja menos na hegemonia de um único país e mais na capacidade de construir redes — e é justamente aí que reside a escolha estratégica brasileira.

Fontes
https://www.estadao.com.br/opiniao/as-universidades-chinesas-no-topo/?srsltid=AfmBOorQSH7MjdqYZ2ERTBNsl_7CgjSsjf-xI5vLvZicF-ORvzUzCfiq
https://www.youtube.com/watch?v=2RsCEZcZebs

terça-feira, 17 de junho de 2025

 

Renovar para Crescer: A Importância de Incentivos Exclusivos para Pesquisadores Não Consolidados

A ciência é o motor do desenvolvimento de qualquer nação. Contudo, o sucesso de uma política científica não depende apenas do volume de recursos investidos, mas principalmente de como esses recursos são distribuídos. No Brasil, é notório o fenômeno da concentração de recursos nas mãos de grupos consolidados, muitas vezes vinculados a grandes universidades e centros tradicionais de pesquisa. Enquanto isso, jovens pesquisadores lutam por espaço, reconhecimento e autonomia. É chegada a hora de discutirmos com seriedade a necessidade de editais e programas exclusivos para pesquisadores não consolidados, com regras claras que impedem a participação ou influência direta de pesquisadores já consagrados.


Não se trata de desvalorizar os pesquisadores consolidados. Muitos deles construíram carreiras admiráveis e desempenham papéis importantes na ciência nacional. O problema reside na estrutura viciada e concentradora, onde os mesmos nomes ocupam, ano após ano, os mesmos espaços de liderança, financiamento e prestígio. Isso cria um ciclo vicioso de privilégio acadêmico, onde jovens talentos permanecem à sombra, muitas vezes trabalhando como coadjuvantes em projetos cujos méritos acabam apropriados por figuras mais influentes. Além disso, a influência informal dos pesquisadores seniores em editais supostamente abertos gera distorções graves no processo de avaliação. Essa influência, por vezes velada, mina a credibilidade do sistema e sufoca a renovação científica.

A criação de editais exclusivos para jovens pesquisadores é uma política que visa corrigir esse desequilíbrio. Programas como esse não são um ataque ao mérito, mas sim um investimento estratégico no futuro da ciência brasileira. Garantir que esses pesquisadores possam liderar projetos de forma autônoma é fundamental para o surgimento de novas linhas de pesquisa, novas abordagens e novas lideranças acadêmicas.

É essencial, porém, que esses editais tragam uma regra explícita: pesquisadores já reconhecidos como bolsistas de produtividade ou líderes consolidados não devem participar — nem como coordenadores, nem como co-coordenadores. Podem, no máximo, atuar como consultores ou colaboradores externos sem poder de decisão. Essa medida rompe com a lógica do apadrinhamento e da tutela, permitindo que novas ideias floresçam por seus próprios méritos.

Alguns críticos podem argumentar que impedir a participação de pesquisadores experientes pode isolar jovens pesquisadores. Essa preocupação é válida, mas facilmente contornada: o diálogo e a colaboração continuam possíveis, desde que os papéis estejam claros e a liderança seja efetivamente do jovem pesquisador. Além disso, esses editais podem prever programas paralelos de mentoria formal, onde a troca de experiência é estimulada, mas a autonomia científica do pesquisador emergente é respeitada.

O dilema que se apresenta é claro: ou o Brasil aposta em uma renovação efetiva de seu quadro científico ou permaneceremos reféns de uma estrutura concentradora e, a longo prazo, estagnada. A inovação nasce da diversidade de perspectivas, e isso só é possível quando novos pesquisadores têm espaço real para construir seus próprios caminhos.

Incentivar jovens pesquisadores com editais independentes e regras claras contra a captura por grupos consolidados é uma medida urgente para democratizar o acesso aos recursos, descentralizar o conhecimento e garantir que a ciência brasileira seja, de fato, um reflexo plural de sua sociedade. Se queremos futuro, precisamos renová-lo hoje.

Darwin Sagan