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Ensino Superior no Brasil e no Mundo

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Direitos e Deveres PÓS INTERNET




Eu fui um dos fiscais de uma prova de concurso para alunos dos últimos anos do Ensino Fundamental e para o Ensino Médio. O edital era bastante rigoroso no que tange a horários e procedimentos. Horários de chegada, preenchimento dos documentos (folha de resposta e folha de redação), saídas de sala ao banheiro, deslocamentos de chegada e de saída à sala, dentre outros.

O primeiro aluno a chegar, com bastante antecedência, parecia um náufrago chegando à ilha deserta. Estranhei sua atitude porque era a segunda fase da avaliação e ele participara da primeira. Rapidamente perguntou se poderia ir ao banheiro. Encaminhei-o aos auxiliares para sua condução. Quando voltou à sala perguntei se estava nervoso. Respondeu que não. Minha experiência dizia o contrário.

A coordenadora das provas informou que deveríamos avisar, escrevendo no quadro da sala, a cada hora, o tempo restante para o final da prova. O aluno em questão mostrava-se extremamente concentrado. Por fim, a partir da última hora de prova, os ficais deveriam, verbalmente, informar o tempo restante. Havia a necessidade de entrega da redação e do cartão de respostas para validar sua chance de passar na avaliação. O cartão dele, entretanto, permanecia em branco.

Quando faltavam trinta minutos, quinze minutos e dez minutos, passei a avisá-lo diretamente que ele precisava preencher o cartão de respostas. Ele disse que estava tudo bem. Quando faltava um minuto ele começou a preencher o cartão. No entanto, ao final do tempo de prova, quando o sinal tocou avisando do término do tempo, avisei que a prova acabara e que mais ninguém poderia escrever.

O aluno entrou em pânico. Disse que estava terminando e precisava acabar de preencher. A coordenadora da prova chegou e lembrou a ele que o edital era claro quanto às regras e que ele não poderia preencher nada após o final da prova. A explicação não foi suficiente e ele, histérico, disse que só precisava de pouco tempo mais, o que lhe foi negado. O candidato entrou em franco desespero.

O episódio, eu soube depois, se repetiu em outra sala. Outra candidata simplesmente deixou a folha de respostas sem preenchimento. Entrou em franco estado de histeria e começou a chorar. Isso continuou enquanto ela se dirigia à saída do local de provas. Soube que o auxiliar que a levou de volta à sua mãe viu ela dizer que não conseguira preencher a folha de respostas.

A mãe da candidata, o auxiliar esperava, deveria apoiar a filha dizendo que isso era um aprendizado e que no próximo ela teria desempenho melhor. No entanto, comentou que não tinha nenhum problema e que iria à justiça para reverter a situação. O auxiliar, presenciando a cena, estranhou a fala da mãe e depois relatou o fato à coordenadora da aplicação das provas.

Acredito que esses fatos revelam o profundo despreparo da atual geração para lidar com regras e frustrações. Muitas vezes verificamos um profundo individualismo, como se o mundo girasse em torno somente dele. Talvez, acredito, essas impressões ocorram por causa das tecnologias que permitem que você, sozinho, se comunique com o mundo por intermédio das redes sociais e das ferramentas de comunicação instantânea.

Acredito que o isolamento das pessoas devido à tecnologia, o que traz uma falsa ideia de que eles estão inseridos no mundo, trouxe uma enorme dificuldade de lidar com o mundo real. Com certeza vemos que o Brasil é um grande descumpridor de regras. Porém, não creio que os jovens de hoje estejam muito preocupados com o que se passa no Congresso, mesmo com a existência da TV Câmara e da TV Senado.

Acredito que os jovens de hoje são capazes de brigar, conversar, terminar namoros, fazer novas amizades e outras atividades apenas no mundo virtual. Isso fez com que tenham enorme dificuldade de encarar os problemas e as situações quando elas acontecem no mundo real. Quando se deparam com uma limitação, quando o nível de estresse aumenta, quando tudo acontece e não existe um botão para “resetar” para começar de novo.

O futuro trará um grande choque. É uma geração que cobra muito os seus direitos. No entanto, não são muito bons em cumprirem os seus deveres. Aliás, acredito que não se preocupem muito em saber quais são. Muito culpa da geração anterior, a minha geração, criada nas dificuldades e da hiperinflação, das dificuldades de empregabilidade, sem internet.


O Google traz respostas a muitas perguntas. Porém, não traz soluções para problemas reais. A nova geração, portanto, sofrerá no seu nível, no mundo pós internet e dos problemas que essa maravilhosa ferramenta trouxe de ruim. É o preço que se paga por suas possibilidades. Tudo tem um lado negro. Já sabia disso desde o primeiro filme da série Jornada nas Estrelas.

Prof. Luiz Augusto ( prof.luau@gmail.com )


domingo, 6 de dezembro de 2015

Mérito, como sempre




O professor César Camacho, presidente do Instituto Nacional de Matemática Aplicada (IMPA), concedeu uma entrevista para falar dos princípios que regem o Instituto. Suas palavras ressaltam o tempo todo que o mérito é o principal norteador do IMPA. Assim, estar nesse centro de excelência significa navegar na excelência e no mérito: Camacho toca, em sua entrevista, na formação dos professores:

É louvável que estejam providenciando um currículo unificado que sirva de roteiro e dê clareza sobre as metas de ensino. Mas essa é apenas a casca do problema. Sem um mestre que domine minimamente o conteúdo e que tenha capacidade de transmiti-lo, o currículo periga virar peça decorativa. É emergencial, portanto, aumentar o nível das faculdades que ainda preparam mal os aspirantes à docência. Esse é um papel para o governo federal. Especialmente na matemática – disciplina em que o aluno, se não assimila um conceito, fica boiando no seguinte -, um professor ruim representa grande perigo. Ele pode comprometer o futuro do estudante e do próprio país (Revista Veja, edição 2449, ano 48, n° 43, 28 de outubro de 2015)

Os países latino-americanos vivem um surto de passado. Não conseguimos pensar em um futuro promissor. Não pensamos em uma gestão que agregue valor a produtos, apenas pensamos em vender sem inserir o conhecimento no que se vende. Os chineses, com milênios de história, ocupam poucas linhas de seus livros didáticos para falar no passado. Pensam, sim, no futuro, na globalização.

Os sul-coreanos pensam nisso também. Fábricas de ponta, alta tecnologia, levam fortunas para o país. Contudo, os equipamentos vendidos não acompanham a necessidade do software a ser embutido. Não há cérebros necessários para gerenciar essa demanda. É nisso que os sul-coreanos jogarão suas fichas para o futuro.

A pesquisa não é uma prioridade no Brasil. Pensamos com pouca objetividade. Não temos gestão, pois isso dá trabalho. Não gostamos de planejar nem de pensar no futuro. Não construímos as coisas de maneira integrada, pensando em cada atividade como um processo. Não há interdisciplinaridade na solução dos problemas, apenas respostas estanques.

Tudo começa na família, em casa. Depois, no professor. Como ressaltou Camacho, o professor deve ser formado e capaz de congregar seus conhecimentos à arte de ensinar, de ligar os pontos, de dar sentido aos saberes. O professor, novamente, é protagonista do progresso.



Prof. Luiz Augusto ( prof.luau@gmail.com )